domingo, 4 de fevereiro de 2018


Mamma mia faz 90 anos 


Minha mãe faz 90 anos. Não desceu do alto numa poltrona, tipo no filme Mamãe faz 100 anos, de 1979, clássico de Carlos Saura. Emma, a mamma, nasceu em Treviso, no Vêneto, Norte da Itália e, quando estava com 11 anos, iniciou-se a Segunda Guerra Mundial. 

Quando o conflito terminou, em 1945, minha mãe estava com 17 anos. Ela lidou bem com as marcas do conflito, procurou não lamentar muito a adolescência roubada e, aos 20 anos, casou-se com Alberto, meu pai, em Maserada, cidadezinha onde viviam. Com 21 anos, meu irmão de quatro meses no colo e meu pai, ela emigrou para o Brasil. Nova Prata, nenhuma rua calçada, 1949, Dr. Tarasconi prefeito, algumas peças para morar e dois fogareiros para providenciar as refeições. Alberto foi trabalhar coordenando as obras da prefeitura. Trabalharam muito, economizaram algum dinheiro e apostaram numa fazenda de café no Paraná, onde a grana sumiu. 

Acontece com jovens imigrantes. Começaram tudo de novo, já com minha garbosa irmã Jussara, nascida na gloriosa Nova Prata. Em 1954, meu pai, meus irmãos e minha mãe grávida foram morar em Bento Gonçalves, onde eu tive a honra, a alegria e o imenso prazer de nascer, modéstia à parte. 

O pai foi trabalhar na prefeitura de Bento. Em Bento, uma casa, trabalho como primeira vendedora da Avon na cidade, filhos crescendo, alegrias e dificuldades, e sempre os sonhos de ver de novo a família e os amigos na Itália. Um acidente no trânsito louco de Caxias, quatro meses de cama para a mamma recuperar a bacia fraturada, e, aí, depois, a viagem para a Itália, 11 anos depois da partida. O pai pretendeu voltar com a família para a Itália. Emma disse que se acostumou com o Brasil e respondeu que não. 

Conseguiu formar os três filhos na faculdade. Sua comadre, na Itália, tinha três filhos e um apenas se formou em curso superior. Filhos em época de faculdade, a família mudou-se para Porto Alegre, onde foi morar na Felipe Camarão, no simpático Bom Fim. Sempre muito trabalho, aí vieram netos, bisnetos e, daqui a pouco, quem sabe, os trinetos. 

Depois de muita luta, a possibilidade de ir para a Itália uma vez por ano. Alguns anos depois, meu pai faleceu de repente, com 67, minha mãe tinha 58. Nove anos depois, meu irmão nos deixou muito cedo, aos 47 anos. Perdas e ganhos, Emma seguiu em frente, mesmo depois de outro violento acidente de carro, em Porto Alegre, e de um infarto aos 72 anos. Seguiu em frente e preferiu ficar todo tempo no Brasil, país que a acolheu e onde nasceram os filhos, netos e bisnetos. 

A vida segue. Emma cruzou a barreira dos 90. Eu, com 64, perto dela, claro que me sinto, muitas vezes, com 10, e ela, com 36. Como disse Mario Quintana, o tempo é só um ponto de vista dos relógios, e, aí, as lembranças, vivências e memórias de verdade ou inventadas vão rolando como água de cascata. Passado, presente e futuro estão embolados, e a bola vai para cá e para lá. 

a propósito... 


Esses dias, eu e minha irmã Jussara fomos tomar um café da tarde, isso, o antigo café da tarde, na confeitaria Liamar de Atlântida. 

A mana pediu mil-folhas que era exatamente para isso que ela queria ir lá. Eu comi canudinho com creme, que era o único doce que eu comia nas nossas festas de aniversário. Aí eu e a mana começamos a lembrar acontecimentos de infância, juventude e vida adulta, tudo misturado, tempo indo e vindo, memória bamboleando. 

Um contando como tinha sido tal coisa, outro pensando se era assim mesmo. Naquele momento, o que tinha realmente acontecido não importava. Importava lembrar, contar. Importava o momento, as mil-folhas, os canudinhos e o café, que a vida é feita de pequenas grandes coisas. Se o que foi é ou não, se deixará de ser ou será diferente, não importa. - 

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/colunas/livros/608703-a-arte-de-viver.html)

Nenhum comentário: