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segunda-feira, novembro 20, 2017



20 DE NOVEMBRO DE 2017
FEIRA DO LIVRO 2017

A Feira do Livro sob tensão

A 63º Feira do Livro de Porto Alegre teve debates interrompidos por questões de segurança, contratempos com a Prefeitura e queda nas vendas. Nem por isso, Marco Cena Lopes, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), entidade que organiza o evento, perde o otimismo em relação à celebração literária a céu aberto:

- A Feira atraiu mais uma vez público para a Praça da Alfândega, reafirmando seu papel de aproximar a população dos livros e da leitura. O objetivo foi atingido.

Em entrevista a ZH, o presidente fez um balanço dos 19 dias de Feira do Livro.

CONSERVAÇÃO DA PRAÇA

Duas queixas em relação à administração pública de Porto Alegre marcaram a Feira do Livro de 2017. A primeira foi em relação às condições da Praça da Alfândega. Segundo a CRL, a capina não estava em dia e o pavimento de pedras portuguesas estava solto em diferentes trechos das alamedas. Além disso, o recolhimento de lixo não estava sendo realizado como em anos anteriores. Para solucionar o problema, a CRL contratou uma empresa terceirizada para limpar a área interna da praça.

- O que me aborreceu foi o estado da praça. Isso não pode mais acontecer. É um desrespeito com o povo de Porto Alegre e com a Câmara Rio-Grandense do Livro, que faz um esforço tremendo para colocar a Feira na Praça da Alfândega.

Mais uma tensão com a prefeitura envolveu o Adote um Escritor. Há 15 anos, o programa, parceria da Secretaria Municipal de Educação (Smed) e a CRL, seleciona obras recém-lançadas para aquisição e trabalho em salas de aula. As atividades previam visitas dos autores às escolas e à Feira do Livro. Para Marco Cena Lopes, com a redução no valor dos repasses da Smed para a compra de livros pelas escolas, o Adote um Escritor ficou prejudicado:

- O corte prejudicou o projeto em sua raiz. Além disso, o dinheiro repassado para as escolas neste ano foi muito menor. Muitos grupos de alunos que iriam à Praça tiveram que suspender a visita por falta de verba.

POLÊMICAS

A 63ª Feira do Livro ficou marcada por momentos de tensão. O primeiro deles foi na abertura do evento, quando o CPERS-Sindicato fez um protesto ao lado do Teatro Carlos Urbim. Com palavras de ordem contra o governo do Estado e sinos, mal dava para ouvir as apresentadoras do evento.

- Achei a postura dos manifestantes desrespeitosa e oportunista. Naquele momento, quase pensei em encerrar a solenidade, mas o grupo se dispersou instantes depois. Minha bandeira também é pela educação e pela leitura, mas justamente quando a gente consegue realizar algo em nome disso, um grupo ameaça estragar tudo - avaliou Marco Cena.

Mesas que debatiam identidade de gênero ou a cultura LGBT também geraram estremecimentos. Logo nos primeiros dias de Feira, o Sarau Feminista, da ONG Cirandar em parceria com o Ponto de Cultura Feminista, foi encerrado por conta da postura de um participante, considerada ameaçadora pelas organizadores. O fato serviu de alerta para a organização, que reforçou a segurança em debates sobre o tema. A mesa Os Livros Fora do Armário: A Literatura Orgulhosamente LGBT, com os escritores Samir Machado de Machado e Natália Borges Polesso e a livreira Nanni Rios precisou ser transferida por motivo de segurança. Do Santander Cultural para o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo e, depois, para o Teatro Carlos Urbim.

QUEDA NAS VENDAS

Cerca de 1,4 milhão de pessoas circularam pela Feira do Livro, segundo estimativa da Brigada Militar. Em relação às vendas, o balanço aponta queda de 14% em comparação com 2016. É o segundo ano seguido em que uma queda como essa é registrada - na edição 2016, as vendas foram 19% menor do que em 2015.

- O que se vê nos últimos 10 anos é uma queda vertiginosa no número de leitores. Há bons formadores de leitura. Muitas crianças são impactadas, mas perdem o hábito de ler na adolescência. Nesse cenário, somado à crise econômica, dá quase para comemorar essa queda não ser maior.

Alguns livreiros reclamaram das chuvas, que desmobilizaram o público, mas muitos sentiram falta da presença de professores e estudantes nas bancas. Em 2015, o projeto Quintanares, com verba de leis de incentivo, havia repassado cartões para cerca de 4 mil crianças e adolescentes ligados a projetos de leitura, com o valor de R$ 30 cada, a serem gastos exclusivamente em livros no evento. No ano seguinte, o projeto teve o orçamento diminuído. Já em 2017, não pôde ser realizado por falta de verba.

- Se em anos anteriores a gente conseguiu verba para os alunos participarem da Feira também comprando livros, neste ano muitas vezes tivemos até dificuldade de levar turmas até a Praça. Tínhamos um número muito maior de patrocinadores que disponibilizavam ônibus para esse transporte. As escolas de periferia são dependentes disso. Da mesma forma, o projeto Adote um Escritor colaborava com a vinda de alunos - destaca Marco Cena.

A presença de público infantojuvenil foi 22% menor do que na Feira do ano passado também em razão das greves nas escolas da rede pública - a visita à Praça da Alfândega costuma ser um programa mobilizado por professores junto aos alunos.

FAVORITOS DO PÚBLICO

A programação da Feira rendeu momentos de boa circulação de público na Praça da Alfândega. Entre os autores que mais atraíram leitores, estão a escritora paulista Monja Coen, que teve a sessão de autógrafos mais concorrida, em 11 de novembro, a mineira Conceição Evaristo e o moçambicano Mia Couto - os admiradores deste já faziam fila para retirar senhas 10 horas antes da palestra realizada no dia 13.

Outro encontro com senhas muito disputadas foi o que reuniu entre quatro renomados cronistas: Luis Fernando Verissimo, Antonio Prata, Gregorio Duvivier e Ricardo Araújo Pereira conversaram com o público no evento mediado pelo jornalista Roger Lerina. Verissimo também voltou a ser destaque na quinta-feira passada, com um bate-papo no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. No encerramento da Feira, ontem, foi a vez do Nobel de Literatura nigeriano Wole Soyinka lotar o Theatro São Pedro com sua palestra.

20 DE NOVEMBRO DE 2017
MANUTENÇÃO

Símbolo do Moinhos precisa de reformas

FECHADA HÁ DOIS ANOS, construção poderá ser revitalizada por um grupo de empresas


Em um dos cenários mais bonitos do Moinhos de Vento, padece um símbolo do bairro, fechado há dois anos. A cor da réplica de moinho açoriano do Parcão já quase nem aparece, em razão de desgaste e sujeira. Algumas rachaduras também saltam aos olhos de quem observa através das grades - a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (Smams) informou que desconhece a gravidade delas, mas vai encaminhar um técnico para avaliar.

Ponderando que adora o Parcão, a enfermeira Simone Lara, 60 anos, comenta:

- Ele está malcuidado (o moinho), realmente, não tem pintura e a gente não pode mais entrar. Mas o que não está destruído na cidade?

Até agosto de 2015, era possível conhecer o interior do moinho. Ele foi projetado em 1982 para ser o prédio da administração e, desde 2004, passou a ter um papel lúdico: abrigava a Biblioteca Infantil Maria Dinorah. Após problemas de infiltração, foi fechado. A biblioteca foi realocada para uma cabana ao lado da passarela, com área muito menor, onde está até hoje. Parte do acervo precisou ser levada para a Biblioteca Jornalista Roberto Eduardo Xavier, também administrada pela Smams, na Avenida Carlos Gomes.

A secretaria não tem previsão para reformar o moinho. Mas as empresas que adotaram o Parcão em abril deste ano (Zaffari, Panvel, Melnick e Hospital Moinhos de Vento) garantem ter planos para o cartão-postal. A engenheira civil Cláudia Lima, que coordena o projeto na Melnick, relata que, no momento da adoção do Parcão, foram elencados serviços obrigatórios e outros complementares.

- Dentre os serviços complementares, está a reforma do moinho, a fim de reativar esse espaço tão marcante e emblemático para o parque - complementa.

Ela afirma que a prioridade é a realização de melhorias de drenagem - que "ainda dependem de tratativas entre secretarias da prefeitura" -, para depois começarem as revitalizações dos espaços. Conta que será feita a limpeza e a pintura da fachada externa do moinho, reforma do telhado e das instalações elétricas e hidráulicas, reforma dos banheiros e revitalização do espaço interno, incluindo a restauração do piso e das escadarias de madeira. A data não está definida, mas a previsão é de iniciar as obras no primeiro trimestre de 2018.

JÉSSICA REBECA WEBER

20 DE NOVEMBRO DE 2017
ARTIGO

FOME NA ESCOLA

Oito anos de idade, 30 quilômetros de viagem, 24 horas sem comer. Um menino, filho de dona de casa desempregada que não tem dinheiro para alimentar as crianças, desmaiou de fome em uma escola do Distrito Federal. O socorrista da Samu foi às lágrimas quando descobriu o motivo do atendimento. Na escola, as crianças comem biscoito e mingau, a rala merenda fornecida pela secretaria. Em casa, arroz e feijão, quando tem. Apesar de as crianças saírem às 11h de casa, a escola não oferece almoço.

O caso remete a outro, que está no Mapa de Boas Práticas da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho. Na escola Adílio Daronchi, de Nonoai, a diretora Marinês Fabris verificou problema semelhante: muitas crianças chegavam e saíam com fome, e o deslocamento era longo. A escola, com apoio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, construiu uma grande horta comunitária, que não só ajuda a alimentar as crianças da escola como também traz qualificação aos estudantes. Segundo a diretora, um menino de 14 anos, de uma família com dificuldades financeiras, levou as técnicas de plantio para casa, e hoje as hortaliças fazem parte do sustento da família.

Para além da má gestão do Estado, da falta de dinheiro e do descaso com a educação pública, há um outro fator: onde estão as políticas públicas? A Universidade de Brasília desenvolveu um projeto chamado Educando com a Horta Escolar em 2012, nacionalmente reconhecido. Ele chegou até essa escola? O Distrito Federal não tem dinheiro para prover sementes e arados? O que falta para que essa iniciativa seja não só adotada em escala nacional, mas posta em prática, para que todas as escolas tenham estufas e canteiros?

A fome é uma realidade nas escolas públicas, não só no Distrito Federal, mas em todo o país. Combatê-la é urgente, e hortas comunitárias e escolares podem ser bons caminhos. Um menino de oito anos que não consegue aprender porque tem fome é um descalabro, que irá estourar nas mais variadas pontas da sociedade a qualquer momento. As iniciativas existem, a pesquisa também, e desperdiçar recursos não ajuda em nada.

LUÍS FELIPE DOS SANTOS

20 DE NOVEMBRO DE 2017
+ECONOMIA

EMPRESAS GAÚCHAS MELHORAM BALANÇOS

Com o fim da temporada de balanços do terceiro trimestre, a coluna foi em busca dos resultados das principais companhias gaúchas de capital aberto para verificar como foram os resultados, enquanto o país começa a sair da recessão. Na comparação com igual período do ano passado, principal recorte observado pelo mercado, os números melhoraram na maior parte dos casos.

Da lista de 13 empresas analisadas, 10 tiveram números que podem ser considerados mais positivos, embora um olhar mais individualizado mostre que em todos os casos a cifra da última linha signifique negócio mais azeitado. O grupo CEEE, por exemplo, teve o desempenho influenciado por fator contábil.

Mas, no fim das contas, cinco empresas aumentaram seus lucros, quatro saíram do vermelho para o azul e uma diminuiu o prejuízo. Grendene e Marcopolo tiveram resultados menores, embora positivos, enquanto Kepler Weber foi do lucro para o prejuízo. A Marcopolo, vale lembrar, foi impactada pelos custos do incêndio em uma unidade de Caxias do Sul. 

Além da situação melhor da economia, os resultados mais positivos também são atribuídos ao dever de casa feito durante a crise com ajustes internos e a base fraca na comparação do ano passado. Veja abaixo como evoluiu o resultado de cada empresa.

caio.cigana@zerohora.com.br

20 DE NOVEMBRO DE 2017
L.F. VERISSIMO

Mudou tudo

Comecei no jornalismo como copidesque, uma função que, imagino, não existe mais. Pensando bem, quase nada das redações daquele tempo sobreviveu à modernização da imprensa. A maior transformação, claro, veio com a revolução da informática, que não só acabou com o copidesque nos jornais como mudou radicalmente a maneira de nos correspondermos com o próximo. Como pudemos viver tanto tempo sem o e-mail?

Escrever e enviar uma carta exigia esforço e paciência, em tempos pré-eletrônicos. Dava tanto trabalho mandar cartas (comprar papel e envelopes, botar o escrito num envelope, endereçar o envelope), que - esqueci, também precisava levar a carta ao Correio e comprar selo - não se sabe como as pessoas tinham tempo para escrevê-las.

Mas escreviam, e muito mais do que nós. Acho até que existia uma relação direta entre a dificuldade para escrever e a quantidade - e a qualidade - do que era escrito. Não há nada parecido, na era dos escritores eletrônicos, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que, além de manuscreverem livros que pareciam monumentos, manuscreviam cartas que pareciam livros. Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. 

Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias cheias de abreviaturas, "envia" e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que as peças e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo mundo. Geralmente xingando todo mundo, o que exigia mais tempo e palavras.

Quanto ao jornalismo, a nova técnica também mudou tudo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência, um trabalho decididamente braçal. Depois vieram os computadores e o ambiente de chão de fábrica foi substituído pelo de laboratório. Tese: data da informatização o começo do domínio crescente de mulheres nas redações. O fenômeno da bem-vinda invasão feminina pode ser apenas um efeito do teclado silencioso.

L.F. VERISSIMO

domingo, novembro 19, 2017


Fantasma discreto, o tempo fica, a certa altura da vida, mais espesso

Vânia Medeiros/Editoria de Arte/Folhapress
Meu filho Felipe, que tem síndrome de Down, até hoje não distingue um sábado de uma segunda-feira ou uma quinta, assim como a diferença entre julho, maio ou novembro; e números como 2017, 1970 ou 1924 são apenas designações do futebol, como Brasileirão, Copa do Mundo ou o incrível nascimento do Clube Atlético Paranaense.

Passei anos tentando lhe impingir a escrita do tempo, cercando-o de calendários, relógios, números e explicações exasperadas e exasperantes sobre as divisões do tempo até que —comigo a ficha sempre se enrosca e demora a cair— percebi enfim, anos depois, que este era um problema estritamente meu.

Ele estava, como sempre esteve e continuará assim, perfeitamente alegre e feliz com o seu presente perpétuo. O que é uma percepção do tempo —ou, quem sabe, uma ausência de percepção do tempo— inacessível aos pobres mortais que vivem na gaiola dos dias, das horas e dos segundos. Súbito me ocorreu que, sem a divisão abstrata do tempo, não há igualmente escrita (ele nunca aprendeu a escrever), que é a arte de produzir e congelar passados.

Certo: só me ocorreu pensar e escrever sobre o tempo porque a essa altura da vida o tempo começa a ficar mais espesso, por assim dizer, e quase conseguimos pegá-lo com a mão. O tempo é um fantasma discreto que só se deixa ver por seus efeitos, que são ruínas.

Estou lendo saborosamente "Sobre o Tempo", de Norbert Elias (1897-1990), pensador de que sou leitor devoto desde que descobri sua obra mais conhecida, "O Processo Civilizador" (Editora Zahar, que publica a sua obra no Brasil): imaginava encontrar uma história da evolução da roda até a propulsão nuclear, e me vi lendo um magnífico estudo da passagem da Idade Média para a Renascença fundamentado em grande parte nos manuais de boas maneiras.

O peso que ele dá às formas coercitivas da cultura, considerando a fronteira sempre elástica entre indivíduo e sociedade, lembra o modo de percepção literária e ficcional da realidade, objeto da prosa romanesca. Mas, nas suas mãos, essa percepção serve a um ângulo rigorosamente objetivo.

Dois exemplos de seu método, ao acaso: em "A Sociedade dos Indivíduos", ele lembra como a liberação feminina e concomitante exposição pública de seu corpo exigiu uma mudança profunda da natureza do olhar e do autocontrole masculinos, e isso não foi apenas uma nota de rodapé da evolução dos costumes; e em "Os Alemães", Norbert Elias investiga a instituição aristocrática do duelo, um ritual formalizado à margem do monopólio da força pelo Estado, em que os nobres (e apenas eles) podiam matar sem consequências sérias, não como um exotismo curioso e acidental, mas como poderosa expressão de estratificação social, com ramificações significativas na vida comum.

Em "Sobre o Tempo", ele observa o momento decisivo em que "uma cronologia centrada no mundo físico separou-se da antiga cronologia, centrada no homem". Isso coincide com a criação da ideia de um mundo físico autônomo, desvinculado da nossa vida social.

O "humano", tudo o que circula na vida cultural e social, passou a se compartimentar, como objeto de estudo, nas chamadas ciências humanas, uma divisão que se universalizou profundamente na consciência contemporânea. Sabemos muito sobre o mundo físico, mas pouco sobre o universo social, diz ele.

Troco em miúdos, para uso próprio: o que sabemos sobre a física nos permite levar um homem à Lua e trazê-lo de lá; mas o que sabemos sobre a sociedade ainda não nos garante esta exatidão em campo algum. Na área de humanas, os "símbolos conceituais estão longe de haver atingido um grau equiparável de coerência e fidedignidade".

No mundo da realidade humana, espraiam-se a limitação e a incerteza do olhar. De certa forma, a ficção passou em grande parte a suprir este papel, no seu modo exclusivo de reconhecimento do mundo. Escrever ficção é produzir um tempo alternativo.

Bem, entre ligar o computador e colocar o ponto final, já se foram, para sempre, duas horas e 45 minutos da minha vida. Felizmente, se eu tive o privilégio de trazer o leitor até aqui, para quem lê a perda de tempo fica em torno de apenas dois ou três minutos. Tanto melhor.


Ao meu lado, Felipe pergunta: "Hoje tem jogo?" 

sábado, novembro 18, 2017


Itamaraty cria comissão para evitar casos de abuso e discriminação


O Itamaraty publicou na terça-feira (14) uma portaria determinando a criação de uma comissão de prevenção e enfrentamento do assédio moral, sexual e da discriminação. O objetivo da comissão é funcionar como um canal de denúncias, promover políticas de prevenção e combate do assédio, e dar assistência psicológica às vítimas.

Apesar da coincidência com a divulgação do processo contra o embaixador João Carlos Souza-Gomes por assédio sexual, a comissão foi criada em resposta a uma pesquisa da Universidade de Brasília, divulgada no início do ano pelo Sinditamaraty (Sindicato Nacional dos Servidores do Ministério das Relações Exteriores).
Andrew Medichini - 3.mar.2014/Associated Press
Prédio da embaixada do Brasil em Roma, na praça Navona, que também abriga representação junto à FAO
Prédio da embaixada do Brasil em Roma, na praça Navona, que também abriga representação junto à FAO
Na pesquisa, 66% dos entrevistados relataram terem sido vítimas de assédio moral. Mesmo com a criação da comissão e a rapidez na abertura do processo contra o embaixador Souza-Gomes, porém, muitos se mostram céticos em relação à responsabilização de acusados de assédio no ministério.

"Como é que um sujeito desses [João Carlos Souza-Gomes] avança tanto na carreira, e nada acontece com ele? Nós nos fazemos essa pergunta diversas vezes", diz Ernando Neves, presidente do Sinditamaraty. "Por que chefes de repartições diplomáticas que deveriam ter sido punidos continuam beneficiados com novos postos?"

Neves se refere ao embaixador Américo Fontenelle. Em 2013, Fontenelle era cônsul-geral do Brasil em Sydney e foi acusado de assédio moral, sexual, racismo, homofobia e abuso de poder por funcionários do consulado, que relataram ter sido ofendidos repetidamente pelo diplomata e serem alvos de brincadeiras de cunho sexual.

Após processo administrativo, o Itamaraty suspendeu Fontenelle por 90 dias. Mas ele contestou a decisão na Justiça, e sua suspensão foi interrompida. O embaixador foi nomeado em agosto para ser cônsul-geral do Brasil em Ciudad del Este, posto cobiçado por diplomatas por sua proximidade ao Brasil.

INVESTIGAÇÃO
Em nota enviada à Folha, o ministério afirma que "não admite qualquer tipo de assédio. Toda e qualquer denúncia será investigada, nos termos da legislação em vigor, assegurado aos acusados amplo direito de defesa".

Diplomatas querem que o Itamaraty crie uma ouvidoria independente para receber denúncias e também uma corregedoria autônoma, para conduzir as investigações, afirmando que um diplomata, por depender de seus superiores para ser promovido, não seria isento. A rigidez hierárquica do ministério faz com que muitos hesitem em denunciar eventuais abusos.

"É muito difícil denunciar porque, de acordo com as regras do ministério, dependemos da chefia para promoção e remoção [mudança de país]", diz a conselheira Christiane Aquino, coordenadora do Comitê para a Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência no Ministério das Relações Exteriores e integrante da comissão de prevenção ao assédio.

"Ao denunciar, o diplomata fica 'órfão' e pode não conseguir ser promovido."
Segundo o Itamaraty, contudo, sem denúncia formal é impossível abrir investigação.

O ministério afirma que, com a criação da comissão, haverá mais um canal para que as vítimas de assédio e discriminação formalizem suas denúncias.

O comitê de gestão de gênero do Itamaraty, que criou uma cartilha sobre assédio, propõe que todos os diplomatas passem por um treinamento especial para prevenir esse tipo de problema no serviço diplomático brasileiro. 



Hipocrisia no aborto

Taba Benedicto/Folhapress
Mulheres realizam um protesto contra a aprovação da PEC 181/2015, na avenida Paulista, em SP
Mulheres realizam um protesto contra a aprovação da PEC 181, na avenida Paulista, em SP
SÃO PAULO - Uma das disfuncionalidades do nosso sistema de voto proporcional puro é que ele incentiva deputados a jogar apenas para a sua plateia, ignorando ou mesmo contrariando os interesses do conjunto do eleitorado.

Por vezes, esse tipo de rebeldia é necessário para fazer avançar questões que tenham pouco apelo popular, como direitos de minorias. Em nosso sistema, porém, os bônus e os ônus eleitorais se encontram tão desbalanceados que convidam à dissimulação. Faz sentido para um deputado defender a bandeira esperada por seu nicho eleitoral, torcendo para que seja rejeitada pelo plenário.

Esse foi, acredito, o caso dos deputados da comissão especial que contrabandearam para uma PEC que analisavam dispositivo que restringiria ainda mais o direito ao aborto no Brasil. Nossos representantes, ligados à bancada da Bíblia, pretendem inscrever no texto constitucional que a vida tem início com a concepção.

Não é uma mudança trivial. Se aprovada, o que felizmente parece improvável, ela faria mais do que apenas reverter as três situações em que a interrupção da gravidez está autorizada (feto anencefálico, estupro e perigo de vida para a mãe).

Se a Carta dissesse que a vida é inviolável desde a concepção e que todos são iguais perante a lei, a consequência lógica seria equiparar a pena do aborto à do homicídio doloso. Mais, a do homicídio doloso qualificado, já que a vítima não tem chance de defesa. Assim, o auto-aborto deixaria de ser um crime que rende de um a três anos de detenção e passaria a ser um que cobra de 12 a 30 anos de reclusão. O Estado estaria então obrigado a identificar, processar e encarcerar em massa as dezenas de milhares de mulheres que abortam a cada ano com o mesmo afinco que caça os mais vis assassinos.


Duvido que os deputados de fato desejem isso. Mas não hesitam em fazer o teatro da defesa da vida para suas bases. O nome disso é hipocrisia. 



18 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Um bebê na plateia

Acho que já comentei este episódio: muitos anos atrás, em 1993, assisti a um show da banda Living Colour num pequeno ginásio em Santiago do Chile. Quem conhece o grupo sabe que eles tocam um funk rock pesado. O som estava incrivelmente alto, e as pessoas fumavam no local. Foi quando vi, ao meu lado, uma moça com um bebê de colo. 

Que agonia. Um bebê naquele ambiente era tão adequado quanto um gorila num concurso de miss. Não me segurei: perguntei a ela se o bebê não estaria melhor em casa. Ela respondeu que não tinha com quem deixá-lo. Tinha, sim, respondi. Com você. E dei uma piscadinha pra ela, pra parecer simpática. Ela me fulminou.

Sei que fui invasiva, mas na época eu tinha uma filha pequena e bateu mesmo um desespero: se meus tímpanos mal estavam aguentando (saí antes do bis), imagine o desconforto daquela criaturinha de poucos meses.

Os argumentos a favor da moça: só por que virou mãe não tem mais o direito de se divertir? O pai, pelo visto, não estava a postos, e babá é caro. É provável que não tivesse um parente ou uma amiga que a socorresse, e devia estar amamentando. Merece ser crucificada por causa disso?

Agora um episódio mais atual, envolvendo o ator Marco Caruso, que passou recentemente por uma situação desagradável. Ele estava encenando a peça O Escândalo Philippe Dussaert quando percebeu uma senhora na segunda fila amamentando seu filho de nove meses, uma criança que logo começou a fazer os ruídos naturais de todo bebê (regurgitar, resmungar etc). A plateia distraiu-se, o ator também, e por fim ele solicitou que ela se retirasse para que pudesse continuar o espetáculo.

A mulher saiu do teatro direto para as redes sociais, onde chamou o ator de preconceituoso, machista, ignorante, mal-educado, além de dizer que a peça era horrível (já assisti, é genial). Muitos defenderam o ator, outros deram razão à mulher, e não consigo entender mais nada. O que faz uma mãe levar um bebê a uma peça de teatro adulto, à noite? A administração do teatro deveria ter orientado a espectadora antes de o espetáculo começar, mas não o fez, e deu-se a confusão.

Mães têm o direito de amamentar no ônibus, numa sala de espera, no meio da rua. Elas precisam se deslocar até o trabalho, ir a consultas médicas e, ao mesmo tempo, manter seus bebês alimentados. Amamentação não é um ato erótico e pode acontecer em qualquer lugar, mas levar um lactente a um show de rock pesado ou a um monólogo teatral é, convenhamos, facultativo: a opção de ficar em casa tem que ser considerada. Pelo bem da própria criança e também por uma questão de bom senso.

Mas alguém quer saber de bom senso? Cada um faz o que bem entende e defende seus direitos aos berros, peitando quem ousar questioná-los. Ok, estando dentro da lei, podemos tudo, mas não custa se perguntar de vez em quando: poder, eu posso, mas devo?

MARTHA MEDEIROS

18 DE NOVEMBRO DE 2017
PIANGERS

Os tempos mudaram

Não faz muito tempo eu e minha esposa resolvemos viajar pela primeira vez sem as crianças, decisão que nos tomou tempo e discussões. As meninas teriam que ficar com as avós, e nosso medo era que de que as senhorinhas não dessem conta do recado. Que elas não soubessem alimentar direito nossas filhas. Que perdessem o horário da aula de natação. Que permitissem assistir televisão demais. Que dessem bolacha e suco artificial de jantar, algo que as duas fizeram comigo e minha esposa quando éramos crianças nos anos 80.

Essas senhoras, as avós, não entendem que as coisas mudaram. Na época que nos educaram o mundo era outro, menos violento e mais permissivo. Minha mãe tinha um Fusca e permitia que eu viajasse no vão atrás do banco de trás do carro, sem cinto e muito menos cadeirinha. Minha esposa conta que sua mãe permitia que ela saísse de casa depois do almoço e só voltasse às nove horas da noite, com a roupa suja e o joelho ralado. Imaginem isso acontecendo hoje em dia! Prendam estas senhoras!

Por isso nossa preocupação. Dizem que o trabalho dos avós é destruir todo o trabalho dos pais, e isso seria inadmissível. Levamos meses para que a minha filha de 12 anos se interessasse por matemática, através de um canal do YouTube que é engraçado e informativo ao mesmo tempo. Nossa filha de cinco anos está comendo um prato inteiro de comida no almoço, basta darmos as colheradas uma a uma na boca. Imagina estragar tudo isso deixando as meninas com as avós.

Durante a viagem imaginamos as avós permitindo tudo, comida em cima da cama e pular corda no meio da sala. Imaginei minha filha pequena indo sozinha à padaria. Meu deus! As avós não sabem como é o mundo hoje, cheio de perigos e gente má. Nos anos 80, a última década em que minha mãe cuidou de uma criança, era normal as pessoas fumarem. Só o que me falta a vovó oferecer um Marlboro pra minha filha mais velha!

O que fizemos! Precisamos voltar desta viagem!

As duas avós se revezaram para cuidar das netas. Quando chegamos em casa, preocupados, minha filha mais velha veio correndo nos receber: "Olha o que a vovó me deu", nos disse. Era um ábaco. "Agora consigo fazer qualquer conta!". A mais nova já dormia. Minha mãe me disse que ela agora come um prato inteiro de comida sozinha. "Sem aviãozinho?", perguntei. "Sem aviãozinho. E escova os dentes e dorme sozinha na cama dela", respondeu a vó.

Seguiram-se semanas em que as meninas dormiam em suas próprias camas, sempre no horário apropriado. Comiam sozinhas. Liam livros e não assistiam desenhos. Tudo muito estranho e organizado. Depois de um tempo de convivência elas deram uma piorada, é verdade. É o que dizem: trabalho de pai é destruir todo o trabalho dos avós.

PIANGERS


18 DE NOVEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Receita para manter a sogra longe

Você não suporta a sogra insistentemente por perto?

Não tem mais paciência para vê-la aparecendo de repente e assumindo o controle de casa?

Você conversou com o marido, pediu limites e providências e nada foi feito?

Você descobriu que está casada com um filhinho da mamãe, de sangue de barata, e que ele jamais vai se opor à invasão do espaço e desembaraçar a confusão de papéis?

Você já está no último auge da escravidão, quando ela abre a geladeira como uma fiscal da vigilância sanitária para verificar o que tem e determina o que deve ser descartado e o que deve subir no congelador?

Tenho a receita de olho de sogra, a simpatia para ela nunca mais incomodar.

Pense comigo. Não funcionou a clara oposição: ou ela ou eu, pois ele ainda continua pendendo para as razões e tirania materna, sob a alegação de que ela somente pretende ajudar. Não surtiu efeito o boicote ao sexo, a birra, as intermináveis discussões de relacionamento chamando atenção para a manutenção da privacidade e dos segredos, sem que sejam partilhados com a matriarca.

A fórmula é realizar exatamente o contrário: seja a melhor amiga da sogra. Convide-a para todos os eventos a dois, até para aquele restaurante romântico que costumam frequentar uma vez por semana. Só fale dela para o marido durante dois meses seguidos, elogiando-a, defendendo-a, achando estranho que ele não vem dando a devida atenção à própria mãe, que ele precisava agradecer, com esforço redobrado, o mérito do nascimento e da vida. Compre presentes de decoração estranhíssimos, com bilhetes açucarados: "Segui o conselho de sua mãe, um exemplo de mulher!".

Transforme a admiração em obsessão. Traga a sogra para assistir a uma longa série de Netflix de noite com direito a cobertor no sofá e pipoca. Desligue o celular e faça longas incursões com ela pelos shoppings - ao chegar tarde, o esposo se sentirá excluído dos planos de passeio e perguntará "onde estavam?". Confidencie manias na cama para a sogra e depois encerre o assunto com muitas gargalhadas quando ele se aproximar.

Trate de ser mais filha que o filho. Nenhum marido aguenta disputar a mãe com uma irmã. Ele romperá os laços com a mãe por ciúme e desfrutará de longeva exclusividade. Ainda poderá colocar a culpa nele, telefonar para a sogra dizendo não entender o que está acontecendo, que ele é um filho ingrato e que ela foi sempre excelente e não merecia nem um pouco tamanha desconsideração.

CARPINEJAR


18 DE NOVEMBRO DE 2017

CLAUDIA LAITANO

O abraço do tempo

A crise da meia-idade é bem diferente vista daqui das primeiras filas. Aos 25, quando ouvia alguém usando essa expressão, ela me soava não apenas distante como as montanhas do Tibete, mas um tanto ridícula. (O que a gente não acha ridículo quando tem 25 anos?) Se existia mesmo algum desconforto ligado à chegada da maturidade, as vítimas não eram as pessoas razoáveis e sensatas, entre as quais eu gostaria de estar incluída quando o futuro chegasse, mas apenas os pobres de espírito que perdiam tempo tentando nadar contra a corrente.

Aos 51, percebo que alguma crise de meia-idade é inescapável - mas, como quase tudo, será reflexo do que se viveu (ou não viveu) antes. Minha impressão, até aqui, é que as mudanças no rosto e no corpo são menos decisivas para esse mal-estar do que eu imaginava. OK, a parte mais visível da passagem do tempo tem um impacto imediato evidente, mas, ao contrário do que costumam pensar os mais jovens, o que procuramos no espelho, depois de uma certa idade, não é necessariamente nosso eu mais novo ou mais bonito, mas aquele que representa melhor a imagem mental que fazemos de nós mesmos. É a dificuldade de sintonizar essas duas imagens, a interna e a externa, que produz tantos homens e mulheres de triste figura.

Parte de qualquer crise da meia-idade, me parece, tem a ver com a necessidade de reconfigurar o espaço que as memórias do passado e os planos para o futuro ocupam em nossos pensamentos. Durante boa parte da vida, viajamos de uma etapa para outra com a bagagem leve dos primeiros anos. O resto é a própria história sendo escrita - família, estudos, amores, trabalho, viagens... - e um futuro a perder de vista onde cabem todos os projetos.

Em determinado momento, essa valise se torna um contêiner. Já não carregamos apenas as nossas lembranças, mas cada momento da vida dos nossos filhos e, em muitos casos, também as memórias de pais e avós que fazemos questão de proteger do esquecimento. Nos tornamos um livro de 500 páginas cheio de histórias para organizar e dar sentido - com alguns capítulos em branco para planejar, é verdade, mas sem muita margem para rascunhos. Experiências se acumulam, se sobrepõem, se misturam. O futuro, ao contrário, vai ficando estreito como uma faixa de areia depois que o mar avançou, o que nos obriga a cuidar dele com inteligência e um certo pragmatismo.

A maioria das pessoas que eu conheço não gostaria de voltar ao passado. Do que a gente realmente sente falta é de não pensar tanto assim na passagem do tempo. Acompanhamos o início e o fim de muita coisa. Vimos nossos ídolos ficando velhos, nossos amigos de infância perdendo o ar de moleques, nossos bebês se tornando adultos, nossos planos mais malucos sendo trocados por outros, menos espetaculares, mas mais factíveis.

Não importa o que tenham nos dito a respeito antes. A história mais antiga do mundo - a voraz transitoriedade de tudo que nos cerca - sempre nos pega de surpresa.

CLAUDIA LAITANO


18 DE NOVEMBRO DE 2017
DRAUZIO VARELLA

Exercício e mortalidade

o corpo humano é uma máquina que a evolução moldou para o movimento

Atividade física é o mais próximo do que poderíamos chamar de panaceia, na medicina moderna. Nos últimos anos, diversos estudos comprovaram que o exercício incorporado à rotina diária reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, câncer, obesidade, problemas reumatológicos e ortopédicos, depressão e o declínio cognitivo característico das demências.

Essas publicações mostraram de forma consistente que a prática de exercícios está associada a cerca de 30% de redução dos índices de mortalidade.

Talvez a lógica devesse até ser invertida: não é que o exercício faça bem para o organismo, a vida sedentária é que faz muito mal. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o impacto nocivo do sedentarismo na saúde é comparável ao do cigarro.

Não é de estranhar: o corpo humano é uma máquina que a evolução de nossa espécie moldou para o movimento. Por esse longo processo que eliminou os menos aptos, chegaram até nós corpos com pernas e braços longos e articulações que fazem as vezes de dobradiças para ampliar a mobilidade e o alcance de objetos distantes.

Com base na experiência científica acumulada, os serviços de saúde passaram a recomendar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade mais intensa. A crítica a esses trabalhos sempre foi a de que se baseavam na descrição dos níveis de atividade física colhidos em relatos individuais, que costumam ser imprecisos.

Um grupo da Universidade Harvard acaba de publicar na revista Circulation os resultados de um inquérito que envolveu 17,7 mil mulheres saudáveis, com idade média de 72 anos, cujos níveis de atividade foram avaliados por meio de acelerômetros, aparelhos que medem com mais acurácia a intensidade dos exercícios, o número de horas dedicadas a eles e o tempo gasto em inatividade.

As participantes usaram o acelerômetro os dias inteiros, durante uma semana típica de suas rotinas.

Metade das mulheres gastou 28 minutos diários na prática de exercícios moderados ou mais intensos (como andar bem depressa). A média diária de tempo dedicado a atividades leves (como o trabalho doméstico ou andar devagar) foi de 351 minutos.

Num período de observação que teve a duração média de dois anos, ocorreram 207 óbitos. De acordo com os níveis de atividade, as participantes foram divididas em quatro grupos. Na comparação com as menos ativas, as que se empenharam em exercícios mais intensos tiveram a mortalidade diminuída em 70%.

Os autores ressaltam que mesmo as que chegaram aos 80 anos se beneficiaram da prática de exercícios mais intensos e da redução do número de horas de inatividade.

A fragilidade mais importante desse estudo foi a de haver selecionado mulheres ativas e saudáveis. Teria sido interessante compará-las com sedentárias da mesma faixa etária.

O formato do estudo não permite estabelecer com segurança a relação de causa e efeito entre atividade física mais vigorosa e a longevidade, mas a probabilidade de se tratar de relação causal é alta.

No passado, os médicos recomendavam que as pessoas mais velhas fizessem repouso, para não "sobrecarregar" o organismo. A imagem dos avós aposentados que passavam os dias cochilando na poltrona da sala, até caírem fulminados pelo infarto do miocárdio ou derrame cerebral, faz parte das memórias daquela época.

Pacientes operados ficavam proibidos de levantar da cama por três ou quatro dias para não "dificultar" a cicatrização. Hoje, o coitado mal saiu do centro cirúrgico e o cirurgião aparece no quarto para expulsá-lo do leito, a ponta-pés, se necessário. O combate à imobilidade ajudou a reduzir significativamente o número de tromboses venosas e embolias pulmonares, responsáveis pelos altos índices de complicações e mortalidade pós-operatória daqueles dias.

A tendência atual é considerar tímida a recomendação de 150 minutos de exercícios leves ou 75 minutos de exercícios mais intensos, por semana, uma vez que o dia tem 1.440 minutos, e a semana 10.080.

- Como fazer com a falta de tempo? - você perguntará.

- Cara leitora, isso é problema seu.

DRAUZIO VARELLA