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quarta-feira, fevereiro 21, 2018



21 DE FEVEREIRO DE 2018

MÁRIO CORSO


Vítimas do fumo


O Rio Grande do Sul tem os piores índices de suicídio do Brasil. A região fumicultora encabeça a lista das preocupações.

As duras condições de vida desses agricultores, dificuldades econômicas, somadas às intoxicações, tanto do tabaco em si como dos agrotóxicos usados no cultivo, são citadas como prováveis causas dessa maior incidência. O suicídio é um ato complexo, difícil imaginá-lo sendo induzido por uma substância. A hipótese é que, assim como existem antidepressivos, pode haver depressivos, substâncias que derrubam o ânimo. Os agentes químicos envolvidos minariam a saúde mental dos trabalhadores até um ponto crítico que, somado a outras dificuldades, culminaria no ato. Os estudos não são conclusivos, temos os ingredientes, mas não sabemos a ordem causal.

Acho estranho não falarmos de algo óbvio e mais tangível nesse caso: hoje, plantar fumo é deprimente. Os agricultores têm orgulho dos seus produtos. Eles podem não ganhar bem, mas plantam comida, produzem algo nobre que está inserido na cadeia da vida e da saúde. O avô do nosso fumicultor plantava com orgulho, o seu pai tinha dúvidas, mas o neto sabe que planta veneno. Usam terras nobres, mais adubo e um trabalho árduo e perigoso, para contribuir com um vício responsável por um sem-número de doenças. O antigo glamour do cigarro deu lugar a uma condenação sem atenuantes.

Os produtores de fumo não são os únicos trabalhadores rurais empobrecidos que usam agrotóxicos, aliás, o coquetel de agrotóxicos do fumo não é muito diferente do de quem trabalha com horticultura. O campo está perdendo a batalha econômica, eles produzem cada vez mais, mas gastam acima disso para tirar um lucro cada vez menor. Se as condições econômicas mais agrotóxico pesassem tanto, o Brasil todo teria um quadro de suicídio endêmico.

Não é fácil produzir fumo. Além da colheita, a preparação e a secagem pedem cuidados especiais. Essas exigências fazem do fumicultor um trabalhador diferenciado. Ele trabalha duríssimo, produz um dos melhores fumos do planeta, mas não ganha um retorno social pela sua empreitada. Essa defasagem entre bom produto que faz, estar preso em uma engrenagem na qual tem pouca manobra e produzir um produto socialmente condenado é o que lhe corrói a autoestima. Como fazer para devolver o orgulho a quem trabalha nessa indústria é que são elas.

O assunto é complexo, coloquei a minha colher torta porque percebo que a bem-vinda condenação do hábito de fumar não é levada em consideração quando pensamos em como ajudar esses agricultores. Nos fixamos em causas químicas e esquecemos que o trabalho é mais do que um ganha-pão, ele diz quem somos e o que valemos. É impossível que esse ingrediente moral não esteja listado entre as causas da tragédia.

*O colunista David Coimbra está em férias. Amanhã, Rosane Tremea escreve neste espaço.



MÁRIO CORSO


21 DE FEVEREIRO DE 2018
FÁBIO PRIKLADNICKI

TEMPO DESPERDIÇADO

Talvez você já tenha sentido a vibração do celular no bolso e, quando foi verificar, percebeu que era apenas uma impressão, de tão acostumado que está a sentir alertas desse tipo. Nesse momento, contudo, você já perdeu a concentração na tarefa que estava fazendo. Se era um trabalho importante, provavelmente demorará alguns minutos para recuperar o foco.

Pode parecer apenas um inofensivo sinal do nosso tempo, afinal, devemos aprender a conviver com os efeitos colaterais dos inúmeros benefícios que a modernidade nos traz. Mas um movimento nascido dentro da indústria da tecnologia está repensando algumas certezas. Um de seus representantes é Tristan Harris, designer que trabalhou no Google e agora se dedica a divulgar reflexões sobre os vários efeitos nocivos do modo de funcionar das redes sociais e dos aplicativos de comunicação.

Harris não sugere acabar com a tecnologia para viver com um primitivo, longe disso. Quem desejaria largar o WhatsApp para voltar a usar orelhões? Ele propõe reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Não é o primeiro a alertar que perdemos muito tempo no Facebook ou no YouTube - a novidade é que procura conscientizar as pessoas sobre as estratégias que os designers de produtos utilizam para sequestrar nossa atenção e quem sabe assim criar uma demanda por mudanças. 

As redes sociais, por exemplo, funcionam de forma similar às máquinas caça-níqueis: cada vez que você atualiza sua timeline, recebe um resultado diferente e se sente recompensado por isso. Não é à toa que é viciante. Cada produto é desenhado para nos interromper a todo momento (veja quem te marcou no Facebook!) e ocupar o maior tempo possível da nossa vida. Isso é ótimo para as empresas, mas será que é para nós?

Esse princípio pode ser traduzido aos nossos hábitos de cultura e entretenimento. Você decide o filme que deseja assistir ou espera a Netflix lhe apresentar as opções? Costumamos pensar que os aplicativos sabem o que queremos fazer, talvez melhor do que nós mesmos, mas será que as primeiras opções apresentadas não estão mais alinhadas aos negócios da empresa do que aos nossos interesses? Pode ser que essa hora seja mais bem ocupada com uma leitura ou um encontro entre amigos. Para retomar o pensamento de Harris: você sabe melhor do que qualquer algoritmo o que é usar bem o tempo.

fabio.pri@zerohora.com.br - FÁBIO PRIKLADNICKI


21 DE FEVEREIRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

VITÓRIA DO POPULISMO

Muitos congressistas preferiram vender a ilusão de que o país suporta indefinidamente o saque 
sem fundos no sistema previdenciário.

Adecisão do governo federal de suspender a votação da reforma da Previdência, na prática, enterrou a possibilidade de uma mudança no atual mandato. A reforma é tão impopular quanto imprescindível, e o fato de ter sido despachada para o limbo de Brasília explica muito das motivações que guiam grande parte dos políticos brasileiros. A Previdência brasileira é reconhecida internacionalmente como uma das mais injustas para alguns e benevolentes para outros. 

Em nenhuma grande nação do planeta é possível se aposentar aos 50 anos ao contrário, na maioria dos países, a idade mínima está subindo para 65 anos ou mais, em razão do aumento da longevidade. Desconhece-se também sistema tão permissivo com as aposentadorias de servidores públicos de vencimentos mais altos. Mesmo em países ricos, a regra comum é o servidor público ganhar na aposentadoria em torno de 70% do que recebia em atividade, e não a integralidade de vencimentos carregados de penduricalhos que furam o desmoralizado teto salarial.

É compreensível e natural que ninguém queira abdicar de privilégios, ou de direitos. Mas a estrutura de custos públicos do Brasil está ficando cada vez mais parecida com a do Rio Grande do Sul, onde sucessivos governos, com aval do parlamento, incharam a máquina pública e fizeram concessões salariais a corporações difíceis de serem justificadas em outras latitudes. A sombra da falência do modelo gaúcho deveria ter servido de alerta nacional, mas não foi o que se viu. Poucos parlamentares, mesmo da base do governo, tiveram coragem de vir a público e, apesar do desgaste previsível, assumir sua responsabilidade com o futuro do Brasil e das próximas gerações. 

Defender a reforma não é só uma necessidade para garantir um mínimo de saúde para o sistema, mas, em decorrência de um déficit abissal, também para manter a estabilidade econômica do país duramente conquistada no último quarto de século. Como se viu no Congresso, muitos congressistas preferiram vestir o confortável manto do populismo e vender a ilusão de que o país suporta indefinidamente o saque sem fundos no sistema previdenciário. Infelizmente, trata-se de uma irresponsabilidade que poderá custar caro para a população que depende da Previdência pública.

O atual governo tem razão em dizer que pouco ou nada se beneficiaria da melhoria das contas públicas associada à reforma moribunda, mas é sintomático que todos os presidentes desde o Plano Real tenham defendido alguma mudança profunda na Previdência uma vez instalados no Planalto. No próximo mandato, não será diferente. 

Por isso, o eleitor deve ficar alerta para os discursos simplistas de candidatos ao Executivo e ao Congresso que passam a ideia de um Estado como ente infinito, capaz de conceder todo tipo de benesse. Não pode. Dizer a verdade, enfrentar contrariedades e apontar soluções factíveis e realistas deveria ser o primeiro compromisso de quem pretende representar os eleitores. O país não mudará pela mão e voz dos populistas, que no fundo são os conservadores com interesse em preservar o insustentável como está.


NÍLSON SOUZA

Salto triplo

A intervenção federal no Rio de Janeiro dá alguma esperança aos oprimidos pela violência (todos nós), desconcerta a oposição e envolve as Forças Armadas nos problemas da vida real, mas também, de alguma forma, na guerra política pelo poder. Foi, aparentemente, um golpe de mestre de um governo inepto para promover reformas e enrolado em suspeitas de corrupção. 

No mínimo, um esperto golpe de marketing: vira a pauta da fracassada reforma da Previdência e oferece uma bandeira palatável para o impopularíssimo ocupante do Palácio do Planalto terminar seu mandato. Mas inclui riscos tão grandes, que o próprio presidente da Câmara, o chileno Rodrigo Maia, buscou uma definição original para a manobra:

- Um salto triplo sem rede!

Salto triplo nunca teve rede, podem alegar os conhecedores de atletismo ou aqueles que ainda recordam as façanhas do saudoso João do Pulo. Mas, na linguagem circense - e o país está mesmo mais para circo (de horrores) -, até se admite. O triplo mortal do trapezista, sem anteparo, é sempre uma temeridade (trocadilho involuntário!) que tanto pode terminar em aplausos quanto em pescoço quebrado.

Confesso que já estou suando nas mãos.

Como a maioria dos brasileiros acuados pela insegurança, torço para dar certo. Alguma coisa tem que dar certo nessa Pátria Amada, pois, como filosofou a escola campeã do Carnaval, seus filhos já não aguentam mais. O Rio é a vitrine do país. Tudo o que lá acontece não apenas repercute nos demais Estados, mas também serve de modelo. Para o bem e para o mal.

A vitrine estava quebrada - pelos arrastões, pela corrupção do tecido público, pelo crime organizado, pelas drogas, pelas balas perdidas, por presídios superlotados, por milícias e facções criminosas. Quem conhece a teoria das janelas quebradas sabe que o abandono e o descaso geram mais depredação, mais violência e a expansão do mal para outras áreas, como na sempre dolorosa metáfora da metástase. Então, chamar o Exército num caso desses talvez não seja nenhum absurdo. 

Na iminência do caos, parece lógico que a primeira providência seja consertar e proteger a vidraça.
Mas ninguém deve se iludir com a calmaria que certamente ocorrerá com a presença ostensiva de militares armados nas avenidas e ruelas da Cidade Maravilhosa. Os soldados não poderão ficar para sempre fora da caserna, nem haverá sentinelas suficientes para guarnecer cada esquina de cada cidade do país.

Só por aí já se pode concluir que não basta combater os efeitos da criminalidade: suas causas também precisam ser enfrentadas. Aí está o x da questão. Como? Com que recursos? Com que cabeças? Os atilados marqueteiros de Brasília, que tiraram a intervenção da cartola já à beira do precipício, devem à nação um projeto factível de prevenção a longo prazo, com oferta de oportunidades, educação e serviços públicos, que efetivamente interrompa a cultura da delinquência vigente nos grandes centros urbanos.

Seja quem for o próximo dono da caneta, é indispensável que apresente uma rede confiável para os próximos saltos.

terça-feira, fevereiro 20, 2018



20 DE FEVEREIRO DE 2018

ARTIGOS

TEMPO DE COMEÇOS E RECOMEÇOS

Para nós, educadores, uma responsabilidade imensa declinada da forma como iremos acolher as expectativas de cada estudante e do quanto estamos preparados para robustecer o sonho de cada um. E para as famílias são importantes as escolhas que serão feitas a partir do que desejam para os filhos. Isso é tarefa séria. Cada escolha tem uma consequência a curto ou médio prazo. Não colheremos morangos de jabuticabeiras, portanto, sejamos coerentes com o que desejamos e sobre quais meios iremos utilizar para incentivar, construir e acalentar a esperança e o protagonismo dos filhos.

Há muitas expectativas para o ano escolar, pois acreditamos que podemos ser a mudança na escola, na vida dos estudantes e na sociedade. Pequenas ações podem transformar-se em grandes revoluções. Precisamos ousar e começar.

O convite é para o engajamento de todos para, juntos, formarmos uma rede de cuidados e aprendizados. A consonância na vivência de valores essenciais entre família e escola dará eco à credibilidade de todos e à promoção de melhores resultados.

Aprender é processo. A maior preocupação não pode estar somente com os resultados, mas com toda a dinamicidade que o aprendizado exige.

Portanto, não percamos a oportunidade de aproveitar os começos ou os recomeços que o tempo nos oportuniza. Somos responsáveis para formar uma geração com valores éticos, morais e sustentáveis, responsabilizando-nos pelos rumos que queremos dar à sociedade, que dependerá da ação do sujeito que estamos formando para, talvez, ajudar no recomeço de um mundo denegrido cuja casa não tem portas abertas para todos e nem possibilidades de começos ou recomeços para muitos.

Diretora do Colégio Santa Inês celassi@santainesr.com.br - IR. CELASSI DALPIAZ

OPINIÃO DA RBS

CRITÉRIOS IRREAIS

Dispêndios bancados por recursos dos contribuintes gaúchos precisam ser tratados com mais transparência e realismo para que a contabilidade oficial se mostre mais confiável

O impasse enfrentado pelo setor público gaúcho em consequência da opção, no passado, por critérios desconectados da realidade sobre o cálculo das despesas com pessoal é uma questão para a qual é preciso encontrar logo uma saída negociada. Sem uma mudança no modelo adotado há 17 anos, depois da entrada em vigor da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o governo do Estado não poderá aderir ao regime de recuperação fiscal em negociação com o Planalto. Se a interpretação, conveniente na época, é rejeitada em Brasília, não há como assegurar a pretendida suspensão do pagamento da dívida por três anos.

No início dos anos 2000, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) decidiu excluir do cálculo final gastos com pensões e com auxílios em geral. A Secretaria do Tesouro Nacional (STN) exige hoje um mínimo de comprometimento de 70% da receita na soma de despesas com servidores e desembolsos da dívida para que o Estado se habilite ao socorro federal. 

O próprio TCE, diante de uma consulta formulada pelo Palácio Piratini, chegou à conclusão de que o comprometimento atual limita-se a 54,94%. Se o cálculo for revisto para permitir o fechamento do acordo, porém, o impacto será inevitável sobre outros poderes. Há o risco de que tenham seus limites estourados e fiquem impedidos de fazer novas contratações. Prefeituras também sofreriam consequências, pois seguem o mesmo padrão.

O fato concreto é que, ao desconsiderar gastos com pensões e diferentes tipos de auxílio ao funcionalismo, a decisão adotada para evitar punições aos gestores públicos acabou desinflando as despesas de pessoal. Trata-se, portanto, de um arremedo antigo para burlar a legislação. O raciocínio é simples. Todos os gastos expurgados estão associados a pessoal. Se houver mais funcionários, esses gastos sobem. Se houver menos, eles caem, como em qualquer empresa do mundo. Então, despesas com servidores que há muito tempo vêm sendo ignoradas, por razões casuísticas, precisam, para todos os efeitos, ser consideradas gastos com pessoal.

A Lei de Responsabilidade Fiscal já deveria estar sendo aplicada há muito tempo no setor público gaúcho. Dispêndios bancados por recursos dos contribuintes gaúchos precisam ser tratados com mais transparência e realismo para que a contabilidade oficial se mostre mais confiável.


20 DE FEVEREIRO DE 2018

ARTIGO

UM PAÍS SE FAZ COM HOMENS E LIVROS

"Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas." Caio Graco pronunciou tal sentença, cuja autoria muitas vezes é atribuída a Mario Quintana, para nos dizer que os livros podem mudar, sim, uma cidade, um país e o mundo, ao modificar cada pessoa que lê.

A leitura, especialmente de livros, traz inúmeros benefícios ao ser humano: melhora a atenção, a memória, expande os pensamentos, os conceitos, aumenta o conhecimento, alimenta a imaginação, enriquece o vocabulário e amplia as formas de se expressar.

No Brasil, a maioria não tem o hábito de ler. Estatísticas recentes informam que 74% dos brasileiros nunca compraram um livro e 30% nunca leram uma obra. Mais da metade da população brasileira se considera leitora, mas não chega a ler cinco livros por ano, mais da metade deles incompletos (Retratos da Leitura no Brasil, 2016). O mercado editorial brasileiro encolheu cerca de 20% em três anos (Pesquisa Produção e Venda, 2017), embora esteja, lentamente, em ascensão.

A pergunta essencial é: por que, no nosso país, lê- se tão pouco? Alguns fatores podem vir à mente, como os preços, os poucos canais de distribuição, a falta de incentivo à cultura da leitura, baixa escolaridade, o parco mercado editorial nacional... As pessoas vão ao cinema, mas e à livraria? Mostram aos filhos desenhos animados e brinquedos da moda, mas e livros? No que se refere às crianças, os pais ou pessoas que as rodeiam devem dar o exemplo da leitura. É tudo sobre hábito.

Ler nutre o cérebro e o coração. Encerro citando Monteiro Lobato, aquele que tanto procurou levar a literatura às nossas crianças para que desenvolvessem o hábito de ler: "Um país se faz com homens e livros". E o Brasil, em meio à destruição moral e econômica, precisa ser refeito.

Sonho que as livrarias, online e off-line, um dia se tornem tão importantes, para a maioria de nós, quanto os cinemas, os restaurantes e outros lugares que sempre frequentamos. E que sejamos um país mais instruído e desenvolvido pelo hábito da leitura.



Escritora, editora e tradutora leilagiselekruger@gmail.com - LEILA KRÜGER



20 DE FEVEREIRO DE 2018
CARPINEJAR

O vendedor de paraísos

Sempre sábado à tarde, em minha infância, alguém batia palmas na frente do portão. Não havia campainha, quiçá interfone. Ele se esgoelava gritando para vencer os latidos e aplaudia fervorosamente o infinito das janelas, como quem pede bis a um artista.

E já sabíamos quem era: o incansável vendedor de enciclopédias. Por mais que recusássemos, ele voltava para alcançar as suas metas. Não aceitava recusa. Antes do nosso "não" definitivo, deixava o folheto colorido e dizia para os pais pensarem no assunto com calma.

Nos anos 1970, sem Google e sem internet, sem celular e sem redes sociais, reinava o conhecimento escrito. Ter uma enciclopédia significava a salvação do ensino para as crianças, a retaguarda dos trabalhos escolares e pesquisas para apresentações em grupo. Lá encontravam-se as grandes invenções da humanidade, a história das civilizações, a anatomia do corpo explicada por plásticos sobrepostos, os maiores cientistas e personalidades. Impossível de se ler inteira, com 20 volumes e mais de 11 mil páginas, atendia somente a consultas pontuais. A vastidão impressionava os possíveis clientes - compravam-se cadeiras no céu da sabedoria.

Além de ser vista como investimento, produzia glamour e inveja. Quem conseguia adquirir esnobava as visitas: colocava na estante da sala, atrás do sofá, com os livros alinhados e em sequência numérica dos tomos. Aparentava uma biblioteca cenográfica de novela, nada fora do lugar.

No mundo sexista do período, mulheres vendiam cosméticos de casa em casa, em especial a partir de revistas da Avon, e homens circulavam com edições da Barsa ou da Britannica Mirador debaixo dos braços - a Britannica custava o dobro, pomposa, maior e de capa marrom, reservada à classe média alta. Quem adquiria Britannica, invariavelmente, tinha piscina, a relação fazia sentido.

O vendedor seguia uma carreira séria, surgia de terno e gravata, cabelo engomado, sapatos engraxados e falava difícil de propósito, para justificar o pacote promocional da sapiência. Lembrava um outro idioma, só mesmo com dicionário ao lado para entendê-lo.

A assinatura de enciclopédia costumava ser celebrada com comemoração pelas famílias, partilhando do status de batizado e casamento. Não se pagava à vista, mas em parcelas a perder de vista, como se fosse um carro ou um imóvel, em uma porção de cheques pré-datados atravessando a penúria de décadas.

Quando meus pais compraram o produto, deram tapinhas em minhas costas:

- Agora tem tudo nas mãos para ser alguém na vida!

CARPINEJAR

segunda-feira, fevereiro 19, 2018



19 DE FEVEREIRO DE 2018
CLÓVIS MALTA

Nós e o tempo

Velhice é assunto que só interessa a quem já chegou nessa etapa da vida na qual a encrenca começa com o termo usado para defini-la. Tendemos a rejeitá-lo, como se fosse ofensivo, e sussurramos a palavra quase pedindo desculpas, como se pisássemos em cacos de vidro com os pés desnudos.

Quem ainda está distante dessa fase da vida, mas tem pretensões de alcançá-la, poderia ao menos seguir adiante neste texto? O tema é justamente a etapa na qual o passado fica longo, e o futuro, tão curto quanto incerto, mas também o período em que o tempo presente parece eterno. Sim, a juventude, expressão pouco usada na fase de quem flutua por aí em turma, mas que só incomoda quando já não nos retrata mais.

Jovens têm seus perrengues, mas não é fácil ser maduro num mundo de verdor movido a libido e a hedonismo. Por recusarem o estereótipo da idade, muitos idosos podem contribuir com um futuro melhor para quem avançar nos anos, sem se dar conta.

Não nos apercebemos porque é bem assim como descreveu Mario Quintana. Chega um dia em que "por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse/ Que me olha e é tão mais velho do que eu?". Rejeitamos o rosto que, na nossa autoimagem, segue sem marcas. O corpo já não responde aos comandos na rapidez da mente. Queremos ser exceções como o poeta, para quem a idade não importa, como roqueiros transformados em lenda, como os que deixam a bengala na cadeira e dançam até o final da festa. Mas, e se estivermos entre a maioria?

De um momento para outro, é como se nos tornássemos invisíveis, principalmente aos olhos de jovens que já não somos nós, mas os outros, que nos sucederam. Passamos a ser vistos como inconvenientes mesmo por tímidas manifestações à mesa. Nos sentimos como um estorvo na mudez de quem se encolhe no banco de trás do carro. E isso sem citar os esquecidos, os abandonados.

Incomodamo-nos, jovens e velhos, com essa fase vista como uma ameaça para o equilíbrio financeiro do setor público, como um peso para o mercado. Hesitamos sobre o que fazer com nossos pais, com os tios, com a sogra. Por desconhecermos como lidar com os que sobreviveram à vida útil, não os deixamos agir do seu jeito. Preferimos carimbá-los como beatos com alguma chance de canonização. Que permaneçam calados, como bons velhinhos.

Um dia, muitos idosos se darão conta de que são subjugados. De que precisam ir além de conquistas como lugar preferencial em fila para quem mal sai de casa, de tarifa grátis em ônibus com degraus inalcançáveis, de cinema com desconto para quem foi perdendo os companheiros de pipoca pelo caminho.

Galera, nosso tempo é agora. Senhoras e senhores, uni-vos. Ocupem as ruas, todos os espaços. Manifestem-se despacito, mas com vigor, enquanto é tempo. Quem não puder, que se solidarize de casa. Chegou a hora de os maiores de 60 se rebelarem, como fazem os jovens, em defesa de suas verdadeiras causas. Os meninos e meninas de hoje, futuros idosos de amanhã, serão eternamente gratos pelas conquistas.

*O colunista David Coimbra está em férias.

Amanhã, Luciano Potter escreve neste espaço.

clovis.malta@zerohora.com.br - CLÓVIS MALTA


19 DE FEVEREIRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

OS GANHOS NAS ESTATAIS


Se a intenção é manter os gastos dentro do teto predefinido, o governo federal precisa rever prioridades e privilégios que não combinam com um setor público com finanças desequilibradas

A informação de que os salários da diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) chegam a superar R$ 100 mil mensais dá uma ideia do quanto as distorções na área administrativa não se limitam a vencimentos acima do teto nos poderes. Embora menores do que os normalmente pagos nesses casos para executivos financeiros do setor privado, os ganhos reforçam a impressão de que algumas estatais vivem num mundo à parte, imunes à crise de um setor público às voltas com desequilíbrios crônicos. O ajuste nas contas federais só faz sentido se incluir também as estatais, muitas das quais sugam anualmente volumes consideráveis de recursos do orçamento da União.

Os salários elevados nas instituições financeiras do setor público, revelados pelo jornal Folha de S. Paulo, se repetem proporcionalmente em outros bancos públicos. No Banco do Brasil, incluindo o pagamento de bônus baseados em ações e remuneração variável, os ganhos nas faixas de diretoria atingem R$ 87,4 mil mensais. 

Na Caixa Econômica Federal, o valor dos salários mais o da remuneração variável é de cerca de R$ 60 mil. No caso do BNDES, há uma gratificação fixa de 25% para todos os funcionários. Esse tipo de vantagem, que não é isolada, levou um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), depois de uma auditoria realizada no ano passado, a afirmar que os valores pagos aos servidores em geral "fariam corar qualquer pessoa dotada de bom senso".

Mesmo com a fixação de um teto de gastos, as corporações estatais mantiveram a pressão por gastos no último ano, elevando salários e dispêndios com pessoal. Só nos últimos dois anos, foram direcionados mais de R$ 40 bilhões do orçamento federal para a manutenção das estatais. Mesmo entre as empresas dependentes de repasses da União, os salários, em alguns casos, passam de R$ 20 mil ao mês. E sem qualquer garantia de que ofereçam retorno proporcional a esses investimentos.

Se a intenção é manter os gastos dentro do teto predefinido, o governo federal precisa rever prioridades e privilégios que não combinam com um setor público com finanças desequilibradas. Uma máquina administrativa em dificuldades financeiras não tem como tomar como parâmetro os salários do setor privado para remunerar dirigentes indicados na maioria das vezes por critérios políticos.

OPINIÃO DA RBS


19 DE FEVEREIRO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha diz que as especulações sobre sua verdadeira idade são fantasiosas e que não é verdade que ela tenha levado o champanhe no primeiro voo com passageiro do 14-bis. Seja como for, Dorinha esteve presente em muitos momentos decisivos da nossa história. Teria, inclusive - por circunstâncias nunca bem explicadas daquele período confuso, e que ela mesma se recusa a esclarecer -, ocupado a Presidência da República entre a renúncia de Jânio, o governo provisório de Ranieri Mazzilli e a posse de Jango, durante 15 minutos. 

Dorinha concorda que a política mudou muito nestes últimos anos e não pode evitar uma ponta de saudade da política como era antes. Principalmente no que diz respeito a acusações e ofensas entre políticos, que no seu tempo... Mas deixemos que ela mesma nos diga em sua carta. Que, como sempre, veio escrita com tinta roxa em papel turquesa cheirando a Mange Moi, o único perfume incluído no índex de proibições do Vaticano.

"Caríssimo! Beijos disseminados. Essas brigas no Congresso me trazem à lembrança um dos meus primeiros maridos, que era senador da República. A República eu sei que era o Brasil, mas o resto ficou meio vago. Não lembro o nome do partido e, pensando bem, nem o nome do marido, de quem só guardei o número da conta bancária, pelo valor afetivo. 

Quando ele foi acusado por outro senador de ser ladrão, chegou em casa e trancou-se no gabinete para preparar sua resposta. Azeitou e carregou sua 38 de cano longo, fiel aos seus princípios políticos, segundo os quais ?réplica de macho é tiro?. No dia seguinte, foi ao Senado, pediu a palavra e atirou cinco vezes no seu acusador, matando cinco ao seu redor. O outro respondeu aos tiros com sua 45 e matou mais três, inclusive meu marido. 

Felizmente, nossa conta era conjunta. Em seguida, o presidente do Senado pôs ordem na sessão, atirando para o alto, e, com a briga encerrada, pôde conduzir os trabalhos a contento, depois de retirados os corpos. É preciso lembrar que o Senado então ficava no Rio e quase sempre havia quórum, mesmo com as baixas. Hoje os congressistas se agridem verbalmente e trocam insinuações e ironias em vez de tiros. Quer dizer, não existe mais romantismo, para não falar em argumentos convincentes. Da tua nostálgica Dorinha."

L.F. VERISSIMO

sábado, fevereiro 17, 2018

A americana que fez doutorado em Cambridge sem nunca ter ido à escola


A americana que fez doutorado em Cambridge sem nunca ter ido à escola - Tara Westover entrou na faculdade aos 17 anos, após comprar livros escondida e se preparar sozinha para um teste. Anos depois, chegou a Cambridge
A americana que fez doutorado em Cambridge sem nunca ter ido à escola - Tara Westover entrou na faculdade aos 17 anos, após comprar livros escondida e se preparar sozinha para um teste. Anos depois, chegou a Cambridge - BBC

Descrição de chapéu

SEAN COUGHLAN
A história de Tara Westover poderia ser um conto de outra época. Mas, diferente disso, é uma narrativa real que envolve uma vida familiar conturbada, preparativos para "o fim da civilização" e uma corrida pela educação que lhe rendeu o título de doutora aos 27 anos de idade, na Universidade de Cambridge - uma das mais prestigiadas do mundo -, sem ter tido qualquer educação formal na infância ou feito o ensino médio.

Tara cresceu em Idaho, nos Estados Unidos, em uma família de sobrevivencialistas - como são chamados grupos ou indivíduos que se preparam para emergências em caso de possíveis rupturas na ordem política e social. Sua família via escolas como parte de um exercício de lavagem cerebral do governo a ser evitado a todo o custo e o resultado é que ela cresceu sem nunca ter pisado em uma escola.

Seu pai, obsessivamente independente, estocava armas e suprimentos, pronto para o fim da civilização e para se proteger de qualquer tentativa do Estado de intervir em suas vidas. E essa lógica valia até mesmo em casos de emergência, como quando, por exemplo, a família se feriu em um acidente grave de carro, mas evitou hospitais por enxergar os médicos como agentes de um estado maligno.

Também era um modo de vida profundamente controlador. A família fazia uma interpretação fundamentalista do Mormonismo - movimento religioso restauracionista iniciado no século 19 nos EUA - e estabelecia regras sobre aspectos da vida de Tara, como o que poderia vestir, seus hobbies e seus contatos com o mundo exterior.

"ACHAVA QUE OS OUTROS FOSSEM ALIENADOS"

Era uma vida dura, violenta e autossuficiente, como na série de TV americana "Little House on the Prairie" (pequena casa na pradaria). Tara se lembra que, com medo de incursões de agentes federais, seu pai comprou armas poderosas o bastante para derrubar um helicóptero.

O estilo de vida que levavam significou, para ela, uma infância montando cavalos na montanha e trabalhando em uma sucata, mas não indo à escola. Ela diz que o argumento familiar em defesa da educação doméstica era, na verdade, um disfarce para nenhuma escolarização.

Na época, não parecia estranho que não fossem à escola como outras crianças locais, diz ela. "Eu achava que eles estavam errados e nós estávamos certos. Eu pensava que eles eram espiritualmente e moralmente inferiores porque iam (à escola), eu realmente pensava", diz Tara, em Cambridge, onde vive agora. "Eu achava que eles estivessem sendo alienados e eu não."

Tara, agora com 31 anos, escreveu um relato sobre sua infância, chamado Educated (Educada, em tradução literal), que está sendo publicada neste mês. Em grande parte se trata de uma autoeducação, porque a primeira vez que teve contato com aulas formais foi quando começou a faculdade, aos 17 anos.

Ela havia aprendido a ler e escrever com sua mãe e seu irmão, mas nunca tinha aprendido nada sobre história, geografia, literatura ou o resto do mundo.

"ENSINAR A SI MESMO"

O acesso aos livros era limitado a alguns títulos que se enquadravam na visão de mundo fundamentalista da família, e ela também trabalhou desde cedo. Mas tinha sido criada com uma crença feroz na capacidade de qualquer um aprender o que quer que fosse desde que se concentrasse naquilo.

"Meus pais me diriam: 'Você pode ensinar qualquer coisa a si mesmo melhor do que outra pessoa o faria'. Esse era o espírito da minha família", diz ela.Buscando uma forma de sair de uma vida familiar restrita e emocionalmente claustrofóbica, ela encontrou uma universidade que a admitiria se passasse em um teste.

Foi então que comprou em segredo os livros didáticos de que precisava e estudou metodicamente, noite após noite, até obter as notas necessárias.Mas quando chegou à sala de aula em 2003, aos 17 anos, ficou em um "estado de temor perpétuo". "Eu era como um bicho da floresta. Estava em pânico, aterrorizada o tempo todo. Achei que me pediriam para fazer algo e eu não saberia o que era."

"Tudo sobre a sala de aula era aterrorizante, porque eu nunca tinha estado em uma delas antes."

"NÃO É UMA ESTEIRA ROLANTE"

Havia enormes lacunas em seu conhecimento. Ela ficou chocada ao aprender, por exemplo, sobre o Holocausto pela primeira vez em uma aula de história. Sobre escravidão, seu único conhecimento prévio havia saído de um livro, no qual, diz ela, esse regime era apresentado como uma experiência benevolente e mais difícil para os proprietários de escravos.Depois de um início desastroso, ela manteve a mente focada nos estudos e provou ser uma aluna altamente capaz.

Tanto que teve a chance de passar um período em Harvard e, depois, ir estudar no exterior, na Universidade de Cambridge. Ela conseguiu uma bolsa de estudos na universidade, com financiamento da Fundação Gates, e fez doutorado. Virou a doutora Westover aos 27 anos, em 2014, sem jamais ter concluído o ensino médio.

O assunto de sua tese foi uma comunidade utópica criada no século 19. A trajetória de Tara lhe deu uma visão pouco ortodoxa sobre como a educação funciona. Ela diz que sua própria educação foi em boa parte uma alternativa extrema, mas tem dúvidas sobre a experiência convencional. "A maior preocupação é que isso parece um processo tão passivo e estéril. Uma esteira rolante onde você fica e de onde sai educado", diz.

"Eu acho que muitas pessoas cresceram com a ideia de que não podem aprender as coisas por conta própria. Elas acham que precisam de uma instituição para lhes suprir conhecimento e ensinar a como fazer as coisas. Eu não poderia discordar mais", diz ela.

DISTANCIAMENTO

Tara diz que se tivesse filhos não os enviaria à escola quando tivessem cinco anos. "Eles poderiam pensar que educação é se sentar quieto." Ela se distanciou de seus pais e de sua religião - e diz que romper com suas antigas crenças tem sido uma experiência traumática.
Mas ela não se converteu acriticamente à nova vida e à experiência na universidade.

Tara diz, por exemplo, que há menos tolerância a diferentes opiniões dentro dos círculos acadêmicos liberais da classe média do que havia entre os fundamentalistas estritos de sua infância. Ela afirma que rejeitou as políticas antigovernamentais extremas, mas que, na perspectiva da Idaho rural onde cresceu, isso fazia algum sentido.

Para comunidades rurais tão isoladas, diz, o governo federal parecia uma "força alienígena e extremamente ineficaz". Nos relatos sobre sua criação, é possível ouvir algumas das ideias que alimentaram a campanha eleitoral do presidente Donald Trump.